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Coaching

Tudo sobre coaching: como não errar na escolha de um bom profissional

A origem do termo coach remete às carruagens produzidas na Hungria do século 16, a arte de levar o indivíduo de um ponto a outro

17/09/2019 10h15Atualizado há 4 semanas
Por: Cristian Ribeiro
Fonte: Forbes Brasil
A prática é indicada para quem busca alcançar metas no âmbito pessoal ou profissional em curto espaço de tempo
A prática é indicada para quem busca alcançar metas no âmbito pessoal ou profissional em curto espaço de tempo

Século 16, Europa. O momento histórico, que marca a transição da Idade Média para o Renascimento e da emersão do pensamento científico é também a fonte do termo coach, que viria a significar uma jornada de autoconhecimento e crescimento pessoal. Tudo começou na Hungria de 1500.

Neste período, o sonho de consumo da cidade húngara de Kocs era a carruagem com suspensão de molas de aço. O item, chamado de kocsi szeker, em referência ao local onde era produzido, era entendido e pronunciado pelos ingleses como coach. Em três séculos, a função de transportar pessoas passou a ser ligada à dos indivíduos que tinham o compromisso de levar outros do ponto em que estavam aos seus objetivos, em um curto período de tempo.

Na primeira metade do século 19, a palavra ganhou força entre os estudantes da Universidade de Oxford que usavam o termo com os professores que os ajudavam a ter um bom desempenho acadêmico. A universidade também passou a disseminar o termo ao chamar de coach (treinador, em tradução direta do inglês) os técnicos de suas equipes esportivas.

Segundo a International Coaching Federation (Federação Internacional do Coach, em tradução livre), organização mundial fundada em 1995 para estabelecer padrões, certificação e credenciamento de profissionais, a prática do coaching é hoje definida como um processo de autoquestionamento e criatividade, que deve instigar e inspirar o cliente a maximizar seu potencial profissional e pessoal.

Para Marcus Baptista, vice-presidente da ICF no Brasil, o coaching em sua essência “é o processo de desenvolvimento do outro que trabalha o propósito de autorresponsabilidade para que o cliente (coachee) desenhe suas próprias soluções com o apoio de um profissional em sua jornada pessoal”.

O que faz um coach

O coach trabalha a partir de uma parceria com o cliente. Ambos buscam maximizar capacidades pouco exploradas para que o próprio coachee possa encontrar as respostas dentro de si e assim os resultados pessoais ou profissionais que deseja. A prática é indicada para quem busca alcançar metas no âmbito pessoal ou profissional em curto espaço de tempo. Um processo dura em média 12 sessões.

Segundo Eva Pontes, Master Certified Coach e professora convidada da Fundação Dom Cabral, Coppead/UFRJ e IBCG, “o coach tem o papel de desenvolver pessoas, não de consertá-las”. “A prática deve ser usada para impulsionar o potencial que há dentro do coachee e o preparar para os próximos desafios e possíveis transições.”

Para Baptista, o objetivo é que, nesse processo de autoconhecimento, o cliente se responsabilize pelo próprio desenvolvimento, o que é diferente de obter uma resposta pronta.

Formação, experiência e graus de qualificação de um profissional

Pela abrangência e responsabilidade exigida em sua atuação, o coach deve obter variadas formações, capacitações, mentoria e supervisão. E, sobretudo, experiência. É uma opção de carreira que requer investimento financeiro e de tempo. A supervisão, segundo Ana Pliopas, Master Coach Certified e professora da Fundação Getúlio Vargas, “é uma maneira de desvendar pontos cegos”. “Se eu estou empacada com um processo, a supervisão vai me ajudar a lidar com questões éticas e separar o que é carga pessoal minha, do que é do cliente”, diz.

Maria Elisa Moreira, psicóloga e professora de Educação Executiva e pós-graduação no Insper, reconhece que hoje há um grande esforço de pessoas que tentam se capacitar rapidamente, mas que não têm experiência, e profissionais experientes que não se atualizam. “O profissional deve ter consciência da importância de aliar uma excelente formação ao próprio aprimoramento pessoal.”

Pelos parâmetros da ICF, há três graus de certificação: coach com prática, o Associate Certified Coach (ACC); coach>/em> com comprovação, o Professional Certified Coach (PCC); e coach expert, o Master Certified Coach (MCC). Cada nível requer uma quantidade de experiência e de horas de treinamento específicas. “O candidato precisa ainda responder um questionário sobre ética e boas práticas. Após a avaliação e aprovação, ele recebe um grau que vai do ACC ao MCC”, diz Baptista.

 

Os graus ACC e PCC contam com três modalidades: ACTP (Accredited Coach Training Program, Programa de Treinamento de Coach Credenciado, em tradução livre); ACSTH (Approved Coach Specific Training Hours, Coach com Horas Específicas de Treinamento, em tradução livre, nível que fornece uma base intermediária de formação dentro dos graus ACC e PCC); e CCE (Continuing Coach Education, Educação Continuada, em tradução livre, modalidade que serve para assegurar a formação do coach já credenciado e renovar as credenciais).

Master Coach Certified

As exigências para conquistar o título de coach expert ou especialista são tão grandes que hoje há apenas oito pessoas credenciadas pela ICF em todo o Brasil. E, no mundo, segundo a ICF, apenas 5% dos profissionais credenciados em todo o mundo possuem o título de Master Coach Certified.

Para aplicar-se ao grau mais alto de qualificação, são necessárias 200 horas de treinamento específico de coach, 10 horas de mentoria em coaching, 2.500 horas de experiência, Avaliação de Desempenho (gravação e transcrição de duas sessões da prática profissional) e obtenção da credencial de Professional Certified Coach.

Nichos do coaching

Existem basicamente dois nichos principais de atuação de um coach: o Life Coaching, que trabalha as questões no âmbito pessoal, como coaching esportivo e de finanças pessoais, e o Professional Coaching, que abrange temáticas do campo profissional, como coaching corporativo, de liderança e carreira.

Segundo pesquisa da ICF, 82,7% dos entrevistados disseram estar muito satisfeitos com a experiência do coaching, e 96,2% afirmaram que repetiriam o processo. Outra pesquisa da Universidade de Harvard apontou que 48% das empresas utilizam a prática para desenvolver alta performance em competências de lideranças.

Coaching x consultoria x mentoria x terapia

Coaching, consultoria, terapia e mentoria são práticas distintas, aplicadas para diferentes situações e cenários. E não excludentes: pode-se aliar duas ou mais técnicas em busca do resultado esperado. “Às vezes, nota-se que o coachee apresenta questões mais complexas, para as quais um coach não está habilitado. Aspectos psicológicos específicos devem ser tratados de forma específica. Gagueira, por exemplo, é caso para um fonoaudiólogo”, diz Maria Elisa Moreira.

Consultoria – Segundo Ana Pliopas, o consultor tem conhecimento técnico objetivo. “Se você quer saber qual carreira dá dinheiro, deve optar por uma consultoria. Coaching passa pela reflexão sobre o que foi dito e sobre o que faz mais sentido, e o que pode ser elaborado a partir de uma conversa”.

Mentoria – “Um mentor usa sua sabedoria e experiência para facilitar o caminho a partir das próprias vivências. Ao contrário do coaching, na mentoria o saber ainda está no mentor, que passa o conhecimento ao mentorado.”

Coaching – Segundo Maria Elisa Moreira, “o processo tem um olhar para o futuro. Trabalha-se com a premissa da realização de sonhos e metas, com base na atual realidade do cliente. Além dos objetivos, é trabalhada também a perspectiva do aprimoramento de habilidades e competências específicas para o desenvolvimento pessoal e profissional. Aqui, as preocupações são os resultados mensuráveis que serão avaliados ao final do processo de curta duração”.

Terapia – “O princípio básico das diversas terapias é atuar sobre problemas e disfunções emocionais de ordem psicológica ou psiquiátrica. E aqui entram os profissionais certificados com atuação regulamentada: psicólogos, fonoaudiólogos, médicos psiquiatras. Neste caso, o profissional vai ajudar o paciente a buscar a causa do seu problema no passado (distante ou recente), trazendo à tona um diagnóstico com as intervenções necessárias”, diz Maria Elisa.

O que diz a Sociedade Brasileira de Psicologia

A prática do coaching por parte de profissionais da área de psicologia não é proibida. As únicas premissas são as de que o atuante deve estabelecer limites entre as duas práticas, seguir o código ético e intervir quando necessário.

“Algumas práticas são exclusivas dos profissionais de psicologia e não devem entrar em uma sessão de coaching. O coach, mesmo sendo psicólogo, vai abordar de forma diretiva, mirando um objetivo específico. O psicólogo vai ter uma ação mais subjetiva, com maior cobertura de demandas”, diz Clarissa Freitas, doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e membro da Sociedade Brasileira de Psicologia. “O coaching não é um processo terapêutico.”

O boom do mercado de coaching nos anos 2000

Atualmente praticada em mais de 145 países, a profissão de coach chegou a crescer 1.589% entre 1999 (2.122) e julho de 2019 (28.363) o número de associados à International Coach Federation — números que podem ser maiores, visto que a associação junto à ICF não é obrigatória. O pico registrado pela federação se deu em 2018, com 33.739 membros.

Dados globais da ICF referentes a 2016 estimam a presença de 53.300 profissionais no mundo e 10.900 gerentes e líderes que colocam em prática habilidades de coaching. Ainda com informações da mesma pesquisa, o valor médio registrado por uma sessão de coaching é de US$ 231, e o mercado global chega a movimentar US$ 2,35 bilhões ao ano.

Do total de profissionais credenciados à ICF, 49% estão na América do Norte, 23% no oeste europeu e apenas 5% na América Latina e Caribe.

Segundo Maria Elisa, a alta procura pelo processo e o consequente crescimento no número de profissionais é um casamento entre “a busca pelo autoconhecimento e a velocidade” das coisas. “O processo de coaching trabalha com princípios objetivos, rápidos e técnicos, que podem auxiliar uma pessoa a atingir resultados com rapidez.”

O mercado do coaching é expressivo, sobretudo, na América do Norte. Segundo Marcus Baptista, os Estados Unidos são o país com maior número de profissionais, mas o Brasil é um dos maiores mercados em potencial. Aqui, há cerca de 600 filiados à ICF, a metade credenciada. Como o credenciamento não é obrigatório e há outros órgãos no setor, estima-se que o número de profissionais seja maior.

Para Eva, o coaching deve seguir em ascensão por trazer resultados para as empresas. “O mercado brasileiro ainda é bastante voltado para a alta gestão, há muito espaço para crescer.”

Regulamentação e banalização

A falta de dados e de regulamentação ainda é um obstáculo para a credibilidade da profissão.

No momento, a classe trabalha com a autorregulamentação a partir de órgãos reconhecidos pelos próprios profissionais, que estabelecem códigos éticos, horas de prática e formações necessárias. O maior é o ICF (International Coach Federation). Na contramão dos números da federação, existem as escolas que dizem formar cerca de 20 mil profissionais ao ano. Ao que parece, no momento, o nicho mais rentável de coaching é a oferta de cursos de formação, não a prática.

“No contexto de uma crise econômica e de desemprego, houve um boom de pessoas mal formadas que se dizem coaches. Além disso, a própria compreensão do que é coaching não é clara, o que gera uma enorme quantidade de coaching para tudo. O mercado não sabe direito o que é, e tudo pode”, diz Eva.

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